Este é um post sério. Talvez o mais sério e de maior profundidade do ano. É um post que chama a todos, especialmente a torcida santista, à análise e à razão.
Em primeiro lugar, o que me fez pensar sobre o que escrevo abaixo foi uma frase, quase ignorada pela imprensa, dita pelo treinador Émerson Leão depois da derrota de ontem, diante do bravo esquadrão do Barueri: “Custe o que custar.”
Dispamo-nos de ideologias partidárias para colocarmos em discussão o assunto mais sério dos últimos anos. O que está em jogo neste começo de 2008 é algo muito maior do que simplesmente o Campeonato Paulista. Maior que a Taça Libertadores. Maior que qualquer campeonato.
O que está em jogo neste começo de 2008, para o Santos FC, é o seu futuro e a determinação da manutenção de seu lugar no rol dos grandes times – ou não.
Da boca do presidente Marcelo Teixeira dificilmente ouvimos algo que gere algum debate ou que nos proponha algum conteúdo. Entretanto, desde a contratação de Émerson Leão, a torcida, gostando ou não dele, deve admitir que ganhou um porta-voz sobre os assuntos internos do clube.
Eis que durante entrevista coletiva, em que todos parecem mais ter se apegado às declarações sobre contratações e sobre o suposto doping do árbitro, o treinador deixou muito claro o que está acontecendo na rotina do clube. Uma revolução. Uma completa e total reformulação. E, o mais assustador, o treinador frisou, enfaticamente, que essa revolução será feita ‘a qualquer preço’. “Custa o que custar” foi a expressão exata.
O que exponho abaixo não é fruto de nenhuma conversa com dirigente. Não é fruto de entrevista. É fruto, única e exclusivamente, de análise dos fatos. É a minha impressão, com a qual vocês concordem ou não.
Bom, mas vamos aos fatos antes de analisá-los.
Dadas as últimas informações vindas da Vila, Émerson Leão, quando refere-se a uma “revolução” o faz, claramente, pensando no trabalho desenvolvido junto aos juniores e ao tratamento destinado pelo clube aos atletas e seus empresários
Pois bem. A história começa na dispensa do técnico Vanderlei Luxemburgo. Me parece bastante óbvio que a dispensa do treinador já estava certa desde antes das eleições no Santos. Óbvio, também, que Marcelo Teixeira sequer cogitou ‘abrir o jogo’ e expor à opinião pública os fatos reais, escancarar suas idéias às vésperas do pleito. Mesmo porque sabe-se que as pessoas tendem a desconfiar de teses revolucionárias assim que são colocadas à sua frente. Isso podia lhe valer a re-re-re-reeleição.
Voltando a Vanderlei Luxemburgo. Não afeito a trabalhar com orçamentos apertados nem disposto a lançar um time de garotos que, aposta das apostas, pode levar um clube tanto à glória quanto à ruína, o treinador-estrela não se dispôs a ‘pagar pra ver’ nem a colocar o nome dele em jogo em um projeto ousado, o qual é tema dessa coluna e no qual chegarei em breve.
Com a recusa de Vanderlei, Teixeira combina com o treinador que esse, que sai do Santos ainda como amigo do mandatário, será seu principal cabo eleitoral. Dirá em entrevistas, e a todos, que só negocia com o Santos caso o amigo seja reeleito. Afinal, o técnico é uma espécie de ‘craque’ da torcida. A torcida confia nele. Ninguém (quase) questiona sua qualidade.
E funciona. Teixeira é re-re-re²eleito. Mas Luxemburgo, como já sabido nos corredores iluminados da Princesa Isabel, sai.
E quem vem para o lugar é um velho conhecido: Émerson Leão. Aquele boca-dura, que topa desafios, que não tem mais nada a perder depois de campanhas (e saídas) polêmicas nos rivais Corinthians e São Paulo. Leão, como dizem por aí, encara a idéia como um desafio na sua carreira.
A teoria
Marcelo Teixeira, apesar de todo o amadorismo e de todo o nebulismo que cercam sua administração, tem uma idéia na cabeça: tornar o Santos um clube auto-suficiente. Grande. Poderoso. Como foi nos idos de 60. Pensa em buscar no passado a chave para o futuro.
O plano envolve principalmente o investimento nas categorias de base. Os meninos, que são a menina dos olhos do mandatário, devem salvar o Santos. Levá-lo ao Céu. Nem que antes precisem ir ao inferno.
Lembrem-se das palavras de Leão, frisadas com tanta ênfase: CUSTE O QUE CUSTAR!
Com o alto investimento na base, nos olheiros, nos diretores juvenis, o Santos amealha uma meninada boa de bola – e que renderá um bom dinheiro em negociações. Com isso, gera mais dinheiro do que gasta, já que não dependerá de contratações milionárias. Craques a gente faz em casa, como diria o Flamengo tempos atrás.
Impossível surgirem novos Diegos e Robinhos ano após ano. Entretanto, ainda que não surjam times geniais, Teixeira espera pelo menos tirar dos CTs juvenis talentos competitivos. Times com os quais o Santos possa disputar seus campeonatos com bravura e lutar nas primeiras colocações. E isso está longe de ser impossível.
Com o tempo, esses meninos-promessas crescem e, mais importante, aparecem. E novos meninos surgem para substituí-los, já que, depois da engorda, vem o abate.
Aquele “custe o que custar” deixa na Vila um ar de deja vù. Para mim parece claro que há um pacto, como o feito com Lula antes da geração dourada. Um pacto de apoio aos atletas revelados e ao técnico, para que se consume o plano principal, que é o da auto-geração de talentos. E esse plano deve ser levado adiante custe o que custar.
Leão, ao chegar, dá uma pisada no calo de Teixeira e, colocando suas vaidades pessoais à frente do apalavrado com o chefe, bota a boca no trombone e desanca a comissão técnica anterior e tudo o que a envolvia, inclusive o Cepraf, outra menina dos olhos dos Teixeira.
Nem assim é dispensado.
Nada, nenhum resultado negativo, nenhum revés, será capaz de derrubar o técnico. Afinal, o resultado não é esperado para agora.
Por isso acredito que a torcida deva se demover de toda e qualquer esperança de título neste ano. E, pelo “custe o que custar” que escapou da boca do comandante santista, passo até a temer pela nossa colocação neste campeonato paulista. Mas, mais uma vez, a coisa vai muito além de um campeonato regional. Trata-se de um projeto para o futuro. Uma boa causa.
Pela primeira vez em anos, vejo Marcelo Teixeira empenhado em um projeto de longo prazo, um projeto que pregue a seriedade na administração do Santos FC. Um projeto para o Santos do futuro.
Um Santos FC independente de empresários e seus embustes. Um Santos FC gerador de talentos, garimpando meninos pelo Brasil, trazendo-os aos campos da Vila. Dando estrutura e cobrando empenho. Subindo-os aos profissionais.
Perfeito e digno de aplausos, ao meu ver. Entretanto, sempre há um porém. Ou, porém, sempre há um entretanto…
Em primeiro lugar falta resolver um assunto de extrema urgência: o tratamento reservado aos empresários. Esses podem colocar abaixo todo o plano dos Teixeira. Sinceramente, não sei como se livrarão dessa praga daninha. Talvez pudessem colocar o Zito para cuidar disso…
Além disso, para o início desse projeto ousado, Teixeira precisaria botar a mão no bolso por uma última vez. Contratar nomes que pudessem levar os meninos pelas mãos. Atletas com experiência para passar, de boa índole, bons de bola, com passagens por clubes importantes ou até mesmo a Seleção.
Sem esses, quem serão os exemplos dos meninos? Rodrigo Souto, por melhor que jogue, não tem retaguarda para isso. Fábio Costa, por mais ídolo da torcida que seja, temos que convir que não pode ser encarado como exemplo para quem está começando. Do elenco atual, apenas Kléber cumpre bem essa função.
Falta alguém para começar! Falta alguém cerebral para dar a mão aos meninos, passar conselhos, não deixar que se abatam diante de um revés. Alguém que lhes puxe de volta ao chão quando seus egos forem inflados pela mídia e pela torcida.
Teixeira prometeu reforços do exterior. Oxalá sejam esses os que tomarão as rédeas dos meninos para que, depois, eles possam andar pelas próprias pernas. O começo do trabalho precisa passar por esse caminho.
Mas nem o próprio Émerson Leão acredita nisso. Devemos nós acreditar?
E nós, como torcida, onde entramos nisso?
Primeiro, devemos esperar que haja seriedade por parte da diretoria para tocar esse plano com a eficácia que ele merece.
Além disso, eu, pelo menos, pretendo acompanhar de perto o desenrolar dessa situação. Se eu perceber que tudo o que eu penso que está acontecendo se confirmar, eu entro no pacto. Espero pacientemente esse novo lugar que o Santos terá na história. Ainda que hajam tropeços. Se o que estiver em jogo for o futuro do Santos, dou meu apoio incondicional. Custe o que custar.
Mas bastará um dos novos talentos ir embora sob circunstâncias misteriosas, uma pisada em falso do mandatário, para eu realmente me decepcionar. Nesse caso, o único caminho para os torcedores será o das urnas.