Estava evitando escrever e comentar sobre a barbárie que aconteceu no Rio de Janeiro, e que poderia acontecer em qualquer outro lugar onde houvesse três ou quatro demônios sem alma.
Eu, que sempre fui absolutamente contra pena de morte, me peguei pensando nisso. Que tipo de gente esses monstros se tornarão depois desse episódio? Que tipo de aberração faz com que o próprio pai diga que preferiria ver o filho morto a conviver com um monstro? E, acredite, se o próprio pai diz isso, quem sou eu pra duvidar!
Sinto medo. Muito medo de que uma coisa assim aconteça comigo, com alguém da minha família. Não adianta. Sempre que acontece algo assim, o ser humano acaba tendo esses pensamentos egoístas, de pensar apenas “ai, se fosse comigo!”. Não somos capazes de avaliar, sinceramente, o sofrimento da mãe, da irmã, da família. Sempre comparamos com as reações que nós teríamos, com o sofrimento que nós sofreríamos. É natural, é normal. Mas sinto vergonha.
Sinto vergonha de não poder fazer nada. Sinto vergonha por não poder, pelo menos, abraçar essa mãe. Dizer que sinto muito, apesar de não adiantar nada. Penso em como ela deve se sentir olhando para o quarto vazio do filho. Pensando no horário da escola, na hora do almoço, das brincadeiras, no jantar. O lugar vazio, o coração vazio. A alma, coitada da alma, despedaçada. Que pena que os que fizeram isso não têm alma para despedaçar!
E penso, também, no que dá pra fazer, se é que dá pra fazer alguma coisa. A maldade é inerente ao ser humano. Li, certa vez, que toda pessoa nasce com instinto assassino, mas se controla ao longo da vida. Exceto uns ou outros.
De toda forma, se não dá pra coibir, pelo menos dá pra reprimir. Encarcerar esses malditos em regime de trabalho forçado por toda eternidade é uma das formas. Um tiro da cabeça de cada um é outra. Mas, realmente, o que acontecerá com eles?
Ficarão, no máximo (que é o que a lei permite) 30 anos presos. Tomando banho de sol. Ligando de seus celulares. Quiçá, virarão crentes na cadeia e sairão por bom comportamento pra visitar seus parentes do Natal. Menos um deles, aquele cujo pai o quer morto…
O que dói mais, além da dor infinita da perda e do horror, é a dor da certeza da impunidade. Hoje, rouba-se, estupra-se, mata-se uma criança de 6 anos porque se tem certeza de que nada, absolutamente nada vai acontecer. Ainda há a prerrogativa de passar a autoria do crime para um menor de idade. Aí, é bingo: nada vai acontecer, mesmo.
Estamos numa sinuca de bico. Quem deveria pensar em mudar as regras do jogo está mais preocupado com a fantasia do carnaval. Então, fico pensando seriamente na letra de uma música do Gabriel O Pensador, que sempre me vêm à cabeça! Mais atual, impossível!
Não adianta olhar pro céu, com muita fé e pouca luta.
Levanta aí que você tem muito protesto pra fazer
e muita greve, você pode, você deve, pode crer.
Não adianta olhar pro chão, virar a cara pra não ver.
Se liga aí que te botaram numa cruz e
Só porque Jesus sofreu não quer dizer que você tenha que sofrer.
Até quando você vai ficar usando rédea?
Rindo da própria tragédia?
Até quando você vai ficar usando rédea? (Pobre, rico, ou classe média).
Até quando você vai levar cascudo mudo?
Muda, muda essa postura.
Até quando você vai ficando mudo?
Muda que o medo é um modo de fazer censura.
Até quando você vai levando porrada, porrada?
Até quando vai ficar sem fazer nada?
Até quando você vai levando porrada, porrada?
Até quando vai ser saco de pancada?
Você tenta ser feliz, não vê que é deprimente,
seu filho sem escola, seu velho tá sem dente.
Você tenta ser contente e não vê que é revoltante,
você tá sem emprego e a sua filha tá gestante.
Você se faz de surdo, não vê que é absurdo,
você que é inocente foi preso em flagrante!
É tudo flagrante! É tudo flagrante!
Até quando você vai levando porrada, porrada?
Até quando vai fica sem fazer nada?
Até quando você vai levando porrada, porrada?
Até quando vai ser saco de pancada?
A policía matou o estudante, falou que era bandido, chamou de traficante.
A justiça prendeu o pé-rapado, soltou o deputado e absolveu os PMs de Vigário
Até quando você vai levando porrada, porrada?
Até quando vai fica sem fazer nada?
Até quando você vai levando porrada, porrada?
Até quando vai ser saco de pancada?
A polícia só existe pra manter você na lei,
lei do silêncio, lei do mais fraco:
ou aceita ser um saco de pancada ou vai pro saco.
A programação existe pra manter você na frente,
na frente da TV, que é pra te entreter, que é
pra você não ver que o porgramado é você.
Acordo, não tenho trabalho, procuro trabalho, quero trabalhar.
O cara me pede o diploma, não tenho diploma, não pude estudar.
E querem que eu seja educado, que eu ande arrumado, que eu saiba falar.
Aquilo que o mundo me pede não é o que o mundo me dá.
Consigo um emprego, começa o emprego, me mato de tanto ralar.
Acordo bem cedo, não tenho sossego nem tempo pra raciocinar.
Não peço arrego, mas onde que eu chego se eu fico no mesmo lugar?
Brinquedo que o filho me pede, não tenho dinheiro pra dar.
Escola, esmola! Favela, cadeia!
Sem terra, enterra!
Sem renda, se renda! Não! Não!!
Até quando você vai levando porrada, porrada?
Até quando vai fica sem fazer nada?
Até quando você vai levando porrada, porrada?
Até quando vai ser saco de pancada?
Muda, que quando a gente muda o mundo muda com a gente.
A gente muda o mundo na mudança da mente.
E quando a mente muda a gente anda pra frente.
E quando a gente manda ninguém manda na gente.
Na mudança de atitude não há mal que não se mude nem doença sem cura.
Na mudança de postura a gente fica mais seguro,
na mudança do presente a gente molda o futuro!
Até quando você vai ficar levando porrada,
até quando vai ficar sem fazer nada?
Até quando você vai ficar de saco de pancada?
Até quando você vai levando?